via GaúchaZH

Jovem estuda no colégio Anchieta, em Porto Alegre (onde só identificou mais um aluno negro)

Com oito anos, Rosana dos Santos Pereira começou a alisar o cabelo, produtos químicos potencialmente nocivos aplicados à cabeça a cada dois meses em nome de uma estética à qual se submetia sem questionamentos. Ela era uma negra, naturalmente crespa, mas com os fios esticadinhos, escorridos, domesticados.
Mas também não era uma negra típica, não para os segregados padrões brasileiros, porque sempre estudou em escola particular, uma aposta e um sacrifício dos pais para abrir-lhe a oportunidade de um futuro melhor, e quando alcançou o Ensino Médio entrou em um daqueles colégios que são sinônimo de educação para a elite de Porto Alegre, o Anchieta.
Ela se sentiu bem acolhida, ainda que a condição social dos colegas fosse diferente, ainda que só houvesse identificado mais um único negro nas turmas do secundário. O colégio de onde vinha era privado também, mas atendia a um público menos abastado e com mais diversidade racial. A nova realidade provocou reflexões:
– Um coisa muito forte de estar no Anchieta foi não me enxergar ali, porque quando tu vês o diferente é que tu descobres quem tu és, porque tu não és aquilo ali. Comecei, talvez pela maturidade também, a perguntar por que só havia eu e mais um outro negro, por que as realidades são tão diferentes. Senti necessidade de entender isso.
Em 2016, essas inquietações levaram Rosana às palestras do Através do Espelho, um projeto de “empoderamento da mulher negra” da organização Marcha do Orgulho Crespo, e depois à Mandala da Diversidade, do Coletivo Feminino Plural, uma iniciativa para debater e engajar. Experiências transformadoras.
– O principal assunto do Através do Espelho é despertar tua consciência para a estética da tua ancestralidade, a tua beleza natural. E a partir dessa pauta vêm muitas outras coisas, do papel do negro na sociedade, da condição do negro, da nossa história. Foi lá que conheci a Mandala da Diversidade, onde tive contato com meninas de realidades bem diferentes, todas negras. Isso ajudou a eu me reconhecer como menina negra e como menina negra privilegiada. Me colocou na caminhada da militância – conta Rosana, 17 anos recém completados.
A adolescente convenceu-se de que o preconceito está enraizado na sociedade brasileira, não que ela tenha sofrido pessoalmente algo grave, fora notar o ar de surpresa com que seu ótimo desempenho escolar era recebido. Além disso, havia as piadas cotidianas que inferiorizam o negro, a tendência de naturalizar o racismo, o racismo travestido de brincadeira, a percepção de que, mesmo que o preconceito já não seja tão terrível como no tempo de sua avó, muita coisa ainda estava errada. Por exemplo, Rosana não lembra de ter sido atendida por um médico negro ao longo da vida e, no entanto, está se preparando para ingressar numa faculdade de Medicina, quer realizar esse sonho, mesmo que isso signifique enfrentar o preconceito, ou talvez porque isso signifique enfrentar o preconceito. Ela aposta muito no despertar dos negros para a importância da educação.
– A sociedade ainda não está pronta para nos abraçar, mas os negros hoje estão se preparando bastante, estão indo atrás. Espero que a gente consiga entrar para a política, ser médico.
Rosana se importa especificamente com a condição da negra, ela que se define como feminista e que fareja muito machismo ao seu redor, inclusive nos meninos da sua idade, aqueles que chamam de “mimimi” qualquer debate das gurias sobre assédio, violência, estupro, aborto. Ela vê na militância da sua geração uma forma de transformar esse cenário.
– Existe essa consciência do homem de achar que tem uma força, um direito a mais sobre a mulher, como se a mulher sempre devesse algo a ele. Não foi na minha geração que as meninas começaram a se questionar, mas tem muita menina e mulher que ainda se submete, porque não percebe ou está em situação vulnerável. Fico orgulhosa de ver que meninas da minha idade estão despertando. Mesmo tendo melhorado muita coisa, ainda temos muito para mudar.
Rosana já mudou algo. Há algumas semanas, parou de alisar o cabelo, adotou tranças afro, e agora está se sentindo muito mais autêntica.

Raio X
Rosana dos Santos Pereira, nascida em 22/9/2000
Uma prioridade: “Estudo”.
Um ideal: “Igualdade”.
Um herói: “Meus pais”.
Defina a educação que você recebeu: “A educação sempre foi prioridade para os meus pais, tive o privilégio de estudar em duas boas escolas particulares, com bons e preparados professores. Infelizmente, receber uma educação escolar de qualidade não é a realidade de muitos brasileiros, em muitos casos por conta de as prioridades terem de ser outras, e em outros por conta de a educação oferecida pelo Estado ser tão deficiente”.
Que papel você espera ter na sociedade: “Espero poder contribuir para a conquista dos direitos das minorias e para a diminuição dos déficits da nossa sociedade. Não pretendo ser nenhuma heroína, mas espero poder honrar os meus ideais em todos os espaços que eu estiver”.
Qual a importância do trabalho: “Ao contrário das imposições do sistema capitalista e da sociedade de consumo vigentes que dão ao trabalho a importância econômica como exclusiva, o trabalho, para mim, é muito mais importante no seu aspecto social, ou seja, do uso dos seus talentos, aptidões e gostos para contribuir de alguma forma socialmente, concomitantemente, é claro, à conquista da satisfação pessoal”.
Um livro, um filme e uma referência musical: “Quarto de Despejo; V de Vingança; Miley Cyrus.
O fato histórico mais importante desde que você nasceu: “Atentado às Torres Gêmeas”.
Defina em uma palavra a sua geração: “Líquida (referência ao conceito de sociedade líquida de Zygmunt Bauman)”.
Defina em uma palavra a geração dos seus pais: “Trabalhadora”.
Para onde caminha o Brasil: “Através da análise dos fatos, não é difícil perceber o lugar para o qual o Brasil está encaminhando-se: a democracia sendo afetada através da perda de direitos e da tirania dos políticos. Além disso, a repressão para com as minorias e aos movimentos sociais demonstram o sistema de repressão iminente”.